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              Semana - 25/Fev. a 3/Mar.

Bocage

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

Foi o maior poeta português do século XVIII, que, tal como Camões, também viveu as aventuras e desventuras de uma existência repartida entre Portugal e a Índia.

Sendo Bocage a figura mais importante do pré-romantismo português, toda a sua poesia reflecte o que foi a sua vida: o amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas.

Tendo vivido uma vida desregrada de boémio, frequentou os cafés lisboetas que alimentavam as ideias da revolução francesa, satirizou a sociedade estagnada portuguesa, desbaratou, por vezes, o seu imenso talento, tendo contraído um aneurisma, que o forçou a mudar de vida e a reconciliar-se consigo próprio e com os inimigos. Morreu a 21 de Dezembro de 1805.

 

 
 

 

 

 

Magro, de olhos azuis

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura,

Bebendo em níveas mãos por taça escura

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades;

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co'o sacrílego gigante.

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo.

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

 

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

 

Nariz, nariz, e nariz,

 

Nariz, nariz, e nariz,

Nariz, que nunca se acaba;

Nariz, que se ele desaba,

Fará o mundo infeliz;

Nariz, que Newton não quis

Descrever-lhe a diagonal;

Nariz de massa infernal,

Que, se o cálculo não erra,

Posto entre o Sol e a Terra,

Faria eclipse total!

Epigrama imitado

 

Levando um velho avarento

Uma pedrada no olho,

Põe-se-lhe no mesmo instante

Tamanho como um repolho.

 

Certo, doutor, não das dúzias,

Mas sim do médico perfeito,

Dez moedas lhe pedia

Para o livrar do defeito.

 

"Dez moedas! (diz o avaro)

Meu sangue não desperdiço:

Dez moedas por um olho!

O outro eu dou por isso."