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                 Semana - 29/Abril a 5/Maio

António Botto

António Botto nasceu em Abrantes, em 1897, tendo vindo a falecer em 1957, no Brasil, para onde emigrara em 1947. Viveu em Lisboa e foi contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa.

António Botto é, por muitos, considerado um dos mais notáveis poetas portugueses, tendo, no entanto, sido algo incompreendido no seu tempo, com algumas das suas obras a gerarem escândalos e polémicas.

A obra de António Botto, que lhe granjeou uma grande audiência e popularidade, estende-se pela poesia, prosa, teatro e contos infantis. Publicou a sua primeira obra poética, a colectânea Trovas, em 1917.

Sugestão de leitura:

 

Canções

Cantigas de Saudade

Baionetas da Morte

Ódio e Amor

 
 
 
 
 

 

 

 
História Breve de uma Boneca de Trapos

 

Era uma vez uma boneca

Com meio metro de altura.

 

Insinuante, bonita,

Mas pobremente vestida.

 

Um ar triste – uma amargura

Diluída no olhar…

- Grandes olhos de safira,

E um sorriso combalido

Como flor que vai murchar.

 

Quase a meio da vitrine

Lá daquela capelista

Essa boneca de trapos

A ninguém dava na vista!

 

Ninguém via o seu sorriso!

 

Ninguém sequer perguntava:

Quanto vale a “marafona”?

Quanto querem p’la “Princesa”?...

 

Passaram anos. – Com eles,

Foi-se a minha mocidade

E cresce a minha tristeza.

 

- Quem é que dá p’la Boneca

Que os meus olhos descobriram

Lá naquela capelista

Quase à esquina do jardim?...

 

-Quem dá por Ela? Ninguém.

 

E quantas almas assim!

.

 
Cinco Reis de Gente

 

Cinco réis de gente

Vai sempre na frente

Dos outros que vão

Cedo para a Escola;

Corpinho delgado,

O olhar mariola,

- Belos os cabelos,

Quantos caracóis!

Mas as mangas rotas

Nos dois cotovelos

São de andar no chão

Atrás dos novelos!

Nos olhos dois sóis

Que alumiam tudo!

A mãe, tecedeira,

Perdeu o marido,

Mas vive encantada

Para o seu miúdo!

 

Soneto

 

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu própio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.
 
Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!
 
Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!
 
E assim cheguei à luz de um pensamento 
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento