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Semana - 3 a 9/Dez.

António Gedeão

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (António Gedeão) nasceu a 24 de Novembro de 1906 em Lisboa.
Desde cedo revelou interesse pela literatura e pela arte das palavras.
Em 1932, um ano depois de terminar a licenciatura em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências do Porto, formou-se em Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras da mesma cidade, encaminhando, assim, a sua vida nos próximos 40 anos para a actividade de professor e pedagogo.
Em 1956 decidiu publicar, já com 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo, que, no entanto, assinou com o pseudónimo de António Gedeão.
Em 19 de Fevereiro de 1997, a morte levou esta brilhante figura da nossa história contemporânea.

Sugestão de leitura:

 

Movimento Perpétuo

Declaração de Amor

Máquina de Fogo

 

 
 
 
 
 

 

 

 
Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956

 

(Versão musicada - Manuel Freire)

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Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

In Fala do Homem Nascido, 1972