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                 Semana - 10 a 17/Dez.

Florbela Espanca

Florbela Espanca, nasceu em Vila Viçosa, em 1894.
Foi precursora do movimento feminista em Portugal e teve uma vida tumultuosa, transformando os seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade.
Em 1903 escreveu a primeira poesia de que temos conhecimento, A Vida e a Morte. Concluiu um curso de Letras em 1917, inscrevendo-se a seguir em Direito, sendo a primeira mulher a frequentar este curso na Universidade de Lisboa.
Em 1919 publicou o Livro de Mágoas, começando nessa época a apresentar sintomas de desequilíbrio mental. O Livro de Sóror Saudade é publicado em 1923. A morte do irmão abala-a gravemente e inspira-a para a escrita de As Máscaras do Destino.
Após o diagnóstico de um edema pulmonar, suicida-se no dia do seu aniversário, 8 de Dezembro de 1930.

Sugestão de leitura:

 

Livro de Mágoas

Charneca em Flor

As Marcas do Destino

Juvenília

 
 
 
 
 
 

 

 

 
Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
 
Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
 
Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...