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              Semana - 14 a 20/Jan.

Mário Cesariny

Poeta e pintor português, nascido em Lisboa. Estudou música com Fernando Lopes Graça e fez um curso na Escola de Artes Decorativas António Arroios. Teve uma passagem pela Academia de La Grande Chaumiére, onde viria a conhecer André Breton, o grande impulsionador do movimento surrealista. Assim, aderiu de imediato a esta corrente e integrou o Grupo Surrealista de Lisboa. Crescentemente dedicado à escrita, Cesariny viria a publicar as obras poéticas O humor, o recurso ao non-sense e ao absurdo, são marcas da escrita de Cesariny, de uma ironia por vezes violenta, que incide sobre figuras e mitos consagrados da cultura portuguesa e ocidental.

 

Sugestão de leitura:

 

Corpo Visível

Manual de Prestidigitação

O Virgem Negra

 
 
 
 
 
 

 

 

 

DISCURSO AO PRÍNCIPE DE EPAMINONDAS,

MANCEBO DE GRANDE FUTURO

Despe-te de verdades

das grandes primeiro que das pequenas

das tuas antes que de quaisquer outras

abre uma cova e enterra-as

a teu lado

primeiro as que te impuseram eras ainda imbele

e não possuías mácula senão a de um nome estranho

depois as que crescendo penosamente vestiste

a verdade do pão a verdade das lágrimas

pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela

depois as que ganhaste com o teu sémen

onde a manhã ergue um espelho vazio

e uma criança chora entre nuvens e abismos

depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato

quando lhes forneceres a grande recordação

que todos esperam tanto porque a esperam de ti

Nada depois, só tu e o teu silêncio

e veias de coral rasgando-nos os pulsos

Então, meu senhor, poderemos passar

pela planície nua

o teu corpo com nuvens pelos ombros

as minhas mãos cheias de barbas brancas

Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada

mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças

e uma estrada de pedra até ao fim das luzes

e um silêncio de morte à nossa passagem.

 

TODOS POR UM

 

A manhã está tão triste

que os poetas românticos de Lisboa

morreram todos com certeza

 

Santos

Mártires

e Heróis

 

Que mau tempo estará a fazer no Porto?

Manhã triste, pela certa.

 

Oxalá que os poetas românticos do Porto

sejam compreensivos a pontos de deixarem

uma nesgazinha de cemitério florido

que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de

recorrer à vala comum

 

 

A um rato morto encontrado num parque

 

Este findou aqui sua vasta carreira

de rato vivo e escuro ante as constelações

a sua pequena medida não humilha

senão aqueles que tudo querem imenso

e só sabem pensar em termos de homem ou árvore

pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)

o milagre das patas - tão junto ao focinho! –

que afinal estavam justas, servindo muito bem

para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar

atrás de repente, quando necessário

Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?

Mas quem sabe quem sabe quando há engano

nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer

que não era para príncipe ou julgador de povos

o ímpeto primeiro desta criação

irrisória para o mundo - com mundo nela?

Tantas preocupações às donas de casa - e aos médicos –

ele dava!

Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?

Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar

e passou nela a roda com que se amam

olhos nos olhos - vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?

Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido

e agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso

que final há-de dar-se a este poema?

Romântico? Clássico? Regionalista?

Como acabar com um corpo corajoso e humílimo

morto em pleno exercício da sua lira?