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              Semana - 28/Jan. a 3 Fev.

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade nasceu em 1923, na Póvoa de Atalaia (Fundão) e morreu no Porto a 13 de Junho de 2005.

Cedo se mudou para Lisboa, onde estudou e conheceu alguns nomes da literatura portuguesa, vindo a fixar-se no Porto em 1950.

Funcionário público, abandonou a ideia de um curso de Filosofia para se dedicar à poesia e à escrita, actividades pelas quais demonstrou desde cedo profundo interesse, a partir da descoberta de trabalhos de Guerra Junqueiro, António Botto e Camilo Pessanha, que foram a sua grande influência.

O tema central da sua poesia é a figuração do Homem em harmonia com a Natureza - lugar de encontro - e, por vezes, em luta com a cidade - lugar de opressão, de conflito e de morte.

O valor da imagem nas palavras, bem como o ritmo e a musicalidade são elementos essenciais na sua poesia.

Autor de uma importante obra poética, durante a sua vida foi reconhecido nacional e internacionalmente, tendo recebido inúmeros prémios literários.

 

Sugestão de leitura:

As Mãos e os Frutos
As Palavras Interditas
Ostinato Rigore

Antologia Breve
Aquela Nuvem e Outras

 

 
 
 
 
 

 

 

 

É Urgente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

 

(Versão audio)

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A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

 

Procura a maravilha

Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.

 

Poema

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.