Eugénio de Andrade nasceu em 1923, na
Póvoa de Atalaia (Fundão) e morreu no
Porto a 13 de Junho de 2005.
Cedo se mudou para Lisboa, onde estudou
e conheceu alguns nomes da literatura
portuguesa, vindo a fixar-se no Porto em
1950.
Funcionário público, abandonou a ideia
de um curso de Filosofia para se dedicar
à poesia e à escrita, actividades pelas
quais demonstrou desde cedo profundo
interesse, a partir da descoberta de
trabalhos de Guerra Junqueiro, António
Botto e Camilo Pessanha, que foram a sua
grande influência.
O tema central da sua poesia é a
figuração do Homem em harmonia com a
Natureza - lugar de encontro - e, por
vezes, em luta com a cidade - lugar de
opressão, de conflito e de morte.
O valor da imagem nas palavras, bem como
o ritmo e a musicalidade são elementos
essenciais na sua poesia.
Autor de uma importante obra poética,
durante a sua vida foi reconhecido
nacional e internacionalmente, tendo
recebido inúmeros prémios literários.
Sugestão de leitura:
As Mãos e os Frutos As Palavras Interditas
Ostinato Rigore Antologia Breve Aquela Nuvem e Outras
É Urgente
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
(Versão
audio)
A Sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
Procura a maravilha
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Poema
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.