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Os Golfinhos do Sado  

As águas do rio Sado guardam um raro tesouro. No estuário deste rio vive uma comunidade de golfinhos. São cerca de trinta e constituem actualmente a única população de golfinhos residentes em Portugal. O nome vulgar do "Tursiops truncatus", Roaz ou Roaz-corvineiro, estará ligado a dois hábitos de caça e alimentação destes golfinhos.

 

Em Setúbal, chamam-lhes "roazes" porque tinham o hábito de rasgar as redes dos pescadores em busca de alimento, e "corvineiros" por se alimentarem de corvinas quando estas eram abundantes na região.

O que terá levado estes animais a estabelecer-se de forma permanente nesta região? A existência de alimento em abundância, aliada à protecção proporcionada pelo estuário contra as tempestades e os predadores naturais, parecem ter sido os factores determinantes para a sua fixação.

A sua vida nunca foi fácil, mas nos últimos anos tudo se tem complicado para esta população de golfinhos sedentários. A preocupante poluição do rio contamina toda a cadeia alimentar e afecta o golfinho-roaz que se encontra no topo da pirâmide. O crescente tráfego marítimo, a exploração turística e a falta de normas de conduta na observação destes animais, põem em risco a sua vida uma vez que interferem com o seu repouso, socialização e alimentação.

 

 

 

O golfinho roaz

 

O roaz tem o dorso cinzento e a zona ventral clara, corpo fusiforme, cabeça robusta com bico curto e largo e uma barbatana dorsal comprida, alta e falciforme.

O seu bico tem uma força espantosa, capaz de provocar ferimentos muito graves num adversário.

A barbatana caudal, que constitui o seu principal órgão de locomoção, é horizontal ao contrário do que se verifica nos peixes.

São cetáceos bem adaptados à vida nas águas costeiras. Embora possam ser encontrados ao largo, a sua preferência vai para estuários, bacias, recifes, podendo penetrar por vezes vários quilómetros a montante da foz, como acontece frequentemente no Sado.

O golfinho roaz, possui um temperamento particularmente sociável e uma linguagem complexa. Eles comunicam entre si emitindo estalidos, assobios e através da ecolocalização (ou ecolocação), que são ultra-sons emitidos da parte frontal da cabeça e que ressoam nos objectos, reflectindo um eco no ouvido interno do golfinho que lhe permite definir a forma, a distância a que se encontra, o número de objectos, etc.

A comunicação é utilizada para alertar para os perigos, para definir a estratégia de caça, para manter contacto com as crias e ainda para saudar ou mesmo ameaçar um companheiro.

 Os golfinhos vivem em grupo onde parece existir uma hierarquia de dominância.

A sua gestação dura cerca de 12 meses. Ao nascer a cria mede cerca de um metro de comprimento e pesa aproximadamente 12 kg. No processo de parto, primeiro sai a cauda do golfinho bebé e só depois a cabeça. Após o nascimento a cria é empurrada até à superfície onde faz a primeira inspiração. O desmame só ocorre por volta dos dezoito meses. A ligação da cria à mãe é muito forte e prolonga-se por um período que pode ir até cinco anos.

São predadores que se alimentam das espécies comestíveis mais frequentes, dentro de uma grande variedade de peixes, moluscos e crustáceos. Na alimentação dos roazes portugueses predominam os chocos, os polvos e as tainhas. O roaz ingere diariamente cerca de 20kg de alimento. Os golfinhos passam grande parte do seu tempo à procura de alimento, e utilizam várias técnicas de caça, alguns caçam sozinhos, outros em pequenos grupos.

São muito activos e frequentemente acompanham os barcos à proa.

Chegam a atingir mais de 40 quilómetros por hora de velocidade a nadar e, vivendo em liberdade, os roazes podem viver até aos 45 anos, tendo as fêmeas geralmente maior longevidade.

Os golfinhos são considerados dos mamíferos mais inteligentes. Possuem uma organização social complexa, uma sensibilidade apurada e são capazes de comunicação através de linguagem constituída por sons audíveis e ultra-sons.

São animais que têm fascinado o homem ao longo dos tempos. São frequentes as lendas que fazem referência a golfinhos que vinham todas as manhãs até à praia brincar com as crianças; golfinhos que se deixaram morrer chorando de dor ao lado de um companheiro assassinado e tantas outras que fazem parte da mitologia de diferentes povos. Para as tripulações dos navios  os golfinhos são  agradáveis companheiros de viagem que anunciam a proximidade da costa. Era comum pensar que os navegantes perdidos os deviam seguir, pois estes os levariam a bom porto, uma vez que segundo a lenda, possuíam a alma de homens maus que pagariam os seus pecados fazendo o bem.

 

Uma população de golfinhos sedentários semelhante a esta, do estuário do Sado, habitou até à década de sessenta no estuário do Tejo, mas desapareceu com a insuficiência de alimento, o aumento do tráfego marítimo e a poluição industrial. A população dos golfinhos-roazes do estuário do Sado tem vindo a diminuir ao longo dos anos. No início dos anos 80 quando investigadores do Projecto Delfim, (Centro Português de Estudo dos Mamíferos Marinhos), começaram os seus estudos contabilizaram um total de cerca de 45 a 48 animais e actualmente o seu número andará por 29 a 31, dependendo do número de crias que nasce e que se mantém em cada ano. Este facto torna a população do Sado uma das mais pequenas e ameaçadas populações residentes de golfinho-roaz (espécie Tursiops truncatus) a nível Mundial. Será que os golfinhos roazes do Sado também irão desaparecer? Será que no futuro passarão a ser uma vaga recordação das gerações mais velhas? Não estará nas nossas mãos contribuir para que os golfinhos-roazes do Sado não entrem na lista negra das populações extintas?

 

Como disse Mahatma Gandhi

“A grandeza de uma nação e o seu processo moral, pode ser medido pela forma como os seus animais são tratados.”


Fonte principais:

CORREIA, Clara Pinto; “Portugal Animal”; Publicações D. Quixote /Círculo de Leitores

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