Navegar

 

            
   

Falar de Pintura

Vieira da Silva

 

 

 

 

Biografia de

Helena Vieira da Silva

Falar de pintura, para mim, é como brincar à cabra-cega.

Diz-se que os cães não vêem como os homens. Eu acho que também há homens que se vêem de modo diferente. Tudo é tão subtil. Tudo o que é real, tudo o que é estável, é falso.

A minha pintura é precisamente o oposto da de Vermeer. Ele tinha certezas. Devia ter uma natureza completamente diferente da minha. Na minha pintura nota-se essa incerteza, esse labirinto terrível. É o meu céu, esse labirinto, mas talvez no meio dele se encontre uma pequena certeza. Talvez seja o que procuro.

Quereria nada excluir da minha admiração. Quereria pôr nos meus quadros muitas coisas, todas as contradições. Com o inesperado. Quereria tornar-me tão ágil, tão segura dos meus movimentos e da minha voz que nada me pudesse escapar, nem a ligeireza das aves, nem o peso das pedras, nem a luz dos metais.

Desde há quarenta anos que busco sempre a mesma coisa, e ainda não a encontrei. Não tenho o direito de dizer o que procuro. É preciso que essa coisa preciosa entronque com a minha pintura e se possa vê-Ia. Se o dissesse, alguns achar-me-iam absurda, outros timorata, outros ainda demasiado ambiciosa. Mais vale não falarmos antes de tempo.

Todos os dias aumenta o meu espanto por estar, por rodar no espaço sobre uma esfera.

É necessário que tudo seja vibrante e vivido. Falam-nos de realidade. Tudo me espanta, pinto o meu espanto, que é ao mesmo tempo maravilha, terror, riso.

Acrescentando pincelada a pincelada, laboriosamente como uma abelha, faz-se o quadro.

Os meus quadros são, antes de tudo, uma organização.

Nunca afirmo nada. Sempre sofri, em nova, com as pessoas de ideias paradas. Gosto que hesitem, que se vejam os prós e os contras, que se mude. Parece que a terra poderia oscilar devido ao peso dos gelos. Por vezes parece-me que isso também poderia acontecer devido à acumulação dos pensamentos.

Quando pinto, não sei. Não sei, quer dizer que sei. Mas... não sei. Nunca faço o que quero fazer. E o quadro que me responde. Depois. Creio no meu quadro quando o acabo.

A minha certeza é a incerteza.

O trabalho material de pintar não é o que me toma mais tempo. Acontece-me por vezes terminar rapidamente um quadro.

Um quadro é feito de tudo, do silêncio, dos rumores, de tudo o que recebo, que se transforma, se bem que me aconteça não o reconhecer quando, maravilhada, acabo a obra.

Mas aquelas horas de espera! Vou olhando tudo, pouco a pouco. Nada. Nenhuma resposta. Essas horas de indecisão são um pesadelo terrível. É por isso que a certa altura me meti a fazer, como dizem, quadradinhos, mil pequenas coisas em que me deixava ir. Havia sempre um traço a acrescentar, um vazio a preencher na tela. Era uma maneira de preencher esse vazio terrível das horas em que não vemos o que é necessário fazer para agarrar um quadro e fazê-lo sair do seu mutismo.

Pouco a pouco, ganha forma uma visão, que de seguida se revela. Olho constantemente, observo, é uma coisa em que se entra de corpo inteiro.

É preciso que o quadro seja tenso, e esforço-me muito para atingir essa tensão, com o risco de ir acumulando as aproximações. Para mim nunca haverá químicos suficientes.

Gostaria sempre de dar mais cor, e ela escapa-me. Tenho a mão avara.

Um dia, logo a seguir à guerra, Wols perguntou-me: «Diga-me, gosto muito do que faz, mas por que é que faz sempre a perspectiva? Respondi que isso não se fazia na arte moderna, mas que era preciso que eu, no entanto, o fizesse.

É claro que a minha organização não é tão perfeita como o metro. Quando conseguir fazer uma perspectiva sem acidentes e sem ser fotográfica, então ficarei satisfeita.

Um quadro deve ter coração, sistema nervoso, ossos, circulação. Deve assemelhar-se a uma pessoa em movimento. E preciso que aquele que olha se encontre perante um ser que lhe fará companhia, lhe contará histórias, lhe dará certezas. Porque o quadro não é evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre as riquezas que se escondem em nós e à nos­sa volta.

 

(Declarações recolhidas por George Charbonnier. Jacques Lassaigne, Mário Dionísio, Jean-.Jacques Lévéque, Anne Philipe e claude Roy.)