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Falar de pintura, para mim, é como brincar à
cabra-cega.
Diz-se que os cães não vêem como os homens. Eu
acho que também há homens que se vêem de modo
diferente. Tudo é tão subtil. Tudo o que é real,
tudo o que é estável, é falso.
A minha pintura é precisamente o oposto da de
Vermeer. Ele tinha certezas. Devia ter uma
natureza completamente diferente da minha. Na
minha pintura nota-se essa incerteza, esse
labirinto terrível. É o meu céu, esse labirinto,
mas talvez no meio dele se encontre uma pequena
certeza. Talvez seja o que procuro.
Quereria nada excluir da minha admiração.
Quereria pôr nos meus quadros muitas coisas,
todas as contradições. Com o inesperado.
Quereria tornar-me tão ágil, tão segura dos meus
movimentos e da minha voz que nada me pudesse
escapar, nem a ligeireza das aves, nem o peso
das pedras, nem a luz dos metais.
Desde há quarenta anos que busco sempre a mesma
coisa, e ainda não a encontrei. Não tenho o
direito de dizer o que procuro. É preciso que
essa coisa preciosa entronque com a minha
pintura e se possa vê-Ia. Se o dissesse, alguns
achar-me-iam absurda, outros timorata, outros
ainda demasiado ambiciosa. Mais vale não
falarmos antes de tempo.
Todos os dias aumenta o meu espanto por estar,
por rodar no espaço sobre uma esfera.
É necessário que tudo seja vibrante e vivido.
Falam-nos de realidade. Tudo me espanta, pinto o
meu espanto, que é ao mesmo tempo maravilha,
terror, riso.
Acrescentando pincelada a pincelada,
laboriosamente como uma abelha, faz-se o quadro.
Os meus quadros são, antes de tudo, uma
organização.
Nunca afirmo nada. Sempre sofri, em nova, com as
pessoas de ideias paradas. Gosto que hesitem,
que se vejam os prós e os contras, que se mude.
Parece que a terra poderia oscilar devido ao
peso dos gelos. Por vezes parece-me que isso
também poderia acontecer devido à acumulação dos
pensamentos.
Quando pinto, não sei. Não sei, quer dizer que
sei. Mas... não sei. Nunca faço o que quero
fazer. E o quadro que me responde. Depois. Creio
no meu quadro quando o acabo.
A minha certeza é a incerteza.
O trabalho material de pintar não é o que me
toma mais tempo. Acontece-me por vezes terminar
rapidamente um quadro.
Um quadro é feito de tudo, do silêncio, dos
rumores, de tudo o que recebo, que se
transforma, se bem que me aconteça não o
reconhecer quando, maravilhada, acabo a obra.
Mas aquelas horas de espera! Vou olhando tudo,
pouco a pouco. Nada. Nenhuma resposta. Essas
horas de indecisão são um pesadelo terrível. É
por isso que a certa altura me meti a fazer,
como dizem,
quadradinhos, mil pequenas coisas em que me
deixava ir. Havia sempre um traço a acrescentar,
um vazio a preencher na tela. Era uma maneira de
preencher esse vazio terrível das horas em que
não vemos o que é necessário fazer para agarrar
um quadro e fazê-lo sair do seu mutismo.
Pouco a pouco, ganha forma uma visão, que de
seguida se revela. Olho constantemente, observo,
é uma coisa em que se entra de corpo inteiro.
É preciso que o quadro seja tenso, e esforço-me
muito para atingir essa tensão, com o risco de
ir acumulando as aproximações. Para mim nunca
haverá químicos suficientes.
Gostaria sempre de dar mais cor, e ela
escapa-me. Tenho a mão avara.
Um dia, logo a seguir à guerra, Wols
perguntou-me: «Diga-me, gosto muito do que faz,
mas por que é que faz sempre a perspectiva?
Respondi que isso não se fazia na arte moderna,
mas que era preciso que eu, no entanto, o
fizesse.
É claro que a minha organização não é tão
perfeita como o metro. Quando conseguir fazer
uma perspectiva sem acidentes e sem ser
fotográfica, então ficarei satisfeita.
Um quadro deve ter coração, sistema nervoso,
ossos, circulação. Deve assemelhar-se a uma
pessoa em movimento. E preciso que aquele que
olha se encontre perante um ser que lhe fará
companhia, lhe contará histórias, lhe dará
certezas. Porque o quadro não é evasão, deve ser
um amigo que nos fala, que descobre as riquezas
que se escondem em nós e à nossa volta.
(Declarações recolhidas por George Charbonnier.
Jacques Lassaigne, Mário Dionísio, Jean-.Jacques
Lévéque, Anne Philipe e claude Roy.)
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